
Lisboa: QuatroCês, 2013
Índice
- História, Tempo e Media.
- A Televisão e a Ditadura (1957-1974).
- O Telejornal e a Guerra Colonial (1961-1974).
- Imagens e representações da ditadura portuguesa na televisão.
- Media e democracia em Portugal.
- A questão da Televisão da Igreja em Portugal: do laicismo às cumplicidades jurídico-políticas do Estado.
Introdução
Uma introdução à história dos média e aos seus contextos culturais, sociais e políticos – das práticas e discursos dos media às relações de poder e ao “fazer história” –, conduz-nos a uma reflexão densa e complexa em torno da própria especificidade dos média e das suas narrativas face ao acontecimento e à história e, simultaneamente, a repensar a forma como a própria história tem interpretado os média e o seu efeito no tempo e na sociedade.
Simplificando, leva-nos a procurar, por assim dizer, analisar os media vistos à luz da história e a desvendar a multiplicidade das história(s), por vezes únicas, ou tão somente percepcionadas de um ponto de vista exclusivista, pelos media.
Como é que a História tem visto os media na sua interacção com o homem e a
sociedade? Importa desde logo introduzir como ponto prévio a ideia de que a
história que se perscruta no discurso dos media não passa de uma história dos
próprios media. Isto é, importa reter que do discurso da comunicação social se extrai, em primeiro lugar, a sua própria história, ou seja, a história de um discurso construído pelos media.
Sendo certo que essa história foi, de certo modo, ao longo dos tempos, a história de um fluxo unívoco de dominação, a questão que se pode colocar é exactamente a de saber se – e como – os media contribuíram, em particular no caso português e sobretudo ao longo da Ditadura salazarista, para a manutenção do regime, da sua estratégia política e ideológica; mas pensar também, já na era pós-democrática, qual o novo discurso do sistema de media, quais as rupturas introduzidas face ao anterior modelo da era da censura, quais os novos perigos e metamorfoses da velha censura da autocracia salazar-marcelista.
Nesta obra procuramos pensar essas dualidades e a complexidade de dois tempos onde há evidentes reinscrições de um sobre o outro. Importará partir de um pressuposto genérico que se traduz por pensar criticamente os media, a sua história, os seus contextos; pensar a relação media-sociedade, sobretudo na no pós-salazarismo. Pensar também os media hoje, as dimensões de crise e sentido; procurar o sentido da História nessa dimensão reflexiva, epistemológica, sobre as práticas e a experiência mediática.
É importante notar ainda que a história, em geral, se concretiza e se propõe
plenamente no texto e só se realiza, portanto, através das suas
concretizações discursivas, o que nos alerta para as complexas dimensões do
“não-dito”, do censurado e auto-censurado, e das conhecidas leis da raridade e do arquivo, propostas por Foucault no contexto da análise dos documentos de um determinado acervo. A própria transparência da imagem é enganadora. O que significa que somos também reféns da obscuridade das imagens e dos seus dispositivos.
Mais do que se darem pela transparência, elas capturam-nos nas suas tromperies, na sua volatilidade, nos seus enganos, nos seus espantos. Apesar disso, e apesar do próprio contexto de crise das grandes narrativas, existem efectivamente condições de possibilidade de uma história dos media enquanto história-ciência e história crítica, atenta ao sentido do discurso dos media ou à descrição e interpretação do mundo que, definitivamente, não está acima de qualquer suspeita.
Desta compilação de textos faz parte uma investigação inédita, justamente sobre a relação entre Estado, Igreja e media em Portugal, e ainda outros artigos que derivam de conferências públicas e de artigos científicos publicados neste âmbito da História, Media e Poder, reunidos para esta edição temática que procura repor um debate que nos parece de primordial importância, quatro décadas depois da reconquista da liberdade. Nessa perspectiva, desenvolvemos nesta obra o estudo das relações entre a televisão e a ditadura, nomeadamente o modo como foi enunciada a narrativa da experiência da Guerra Colonial, bem como o estudo das imagens e representações da ditadura na televisão portuguesa, configurando um modelo mediático e histórico dessa época; e relativamente ao pós-25 de Abril trataremos uma primeira fase de grande complexidade – o período do PREC -, e, depois, o período da institucionalização do regime, com um estudo de caso aprofundado sobre a questão da Televisão da Igreja em Portugal, completando assim um largo conjunto de aspectos que darão uma visão histórica que julgamos bastante completa sobre a relação do poder com os media ao longo do século XX em Portugal.
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