
Salazar, Caetano e a Televisão Portuguesa (Lisboa: Presença, 1996)
Índice
Agradecimentos
I. Introdução
II O ‘nosso caso comezinho’: a informação televisiva com Salazar
II.1. RTP, Ano Zero
II.2 Salazar, o regime e a televisão
II.3. A questão colonial na RTP, ou “um soldado chamado Televisão”
II.4. A emergência dos Comentários e dos Editoriais – a opinião
do Telejornal em tempo de crises
II.5. Sob o signo do “visto” do censor: a “era Múrias”
II. 5.1. Humberto Delgado e a RTP – história de uma persecução
II.5.2.Eleições Presidenciais e Legislativas de 1965: o ‘candidato natural’
(Tomás), o “narrador objectivo” (Múrias) e o “traidor” (Soares)
II.6. Os anos do fim do ‘magistério’ político-televisivo de Salazar
III. Telejornal: a ‘arma de propaganda’ de Marcello Caetano
III.1. A ‘primavera marcelista’ e o regresso do
fundador: Salazarismo televisivo sem Salazar
III. 1. 1. As primeiras “conversas em família”
III. 1. 2. A “dessalarização”: o ‘espectáculo
abominável’ – declíneo e queda de Salazar
III. 2. A estratégia política editorialista do ‘consulado Valadão’
III. 2. 1. As eleições de 1969
III. 2. 2. O Congresso da União Nacional
III. 2. 3. Soares, o “falso advogado”
III. 2. 4. A morte de Salazar
III. 2. 5. Da (re)emergência do ‘Internacional’ à renovação do
‘mandato indeclinável’.
III. 2. 6. Da Revisão Constitucional à Lei de Imprensa
III. 2. 7. A caminho do fim: novos actos protocolares do
‘organismo ético’
III. 2. 8. A súbita ascensão de César Moreira Baptista
a comentador do Telejornal
III. 2. 9. A homenagem da RTP a Marcello Caetano e o fim do
marcelismo
IV. A máquina dissuasora: a televisão ao serviço da ditadura
Fontes e Bibliografia
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Pretendeu-se com este trabalho desenvolver uma investigação histórica rigorosa sobre o tipo de relações estabelecidas entre o poder político monopartidário e o Telejornal, designadamente no período que decorre entre o aparecimento da televisão em Portugal e o fim do regime de Salazar e Caetano.
A investigação centra-se, fundamentalmente, sobre o texto de opinião — Comentários e Editoriais — produzidos ao longo de 17 anos nas aberturas dos telejornais. Através da sua genealogia e da análise das suas formações discursivas, e tendo ainda em consideração a estrutura e os alinhamentos da informação televisiva ao longo de todo esse vasto período, procurámos refletir sobre o carácter “monumental” da realidade histórica enunciada e sobre os acontecimentos que ascenderam à “dignidade” histórica de um campo mediático instrumental per excelência. Colocou-se-nos o problema do contexto e das condições de produção dessa informação, e, claro, a descrição intrínseca, arqueológica, desses documentos e das formações discursivas em que se inserem.
Substituímos a procura de uma totalidade histórica pela sistematização das descontinuidades e pela análise da “raridade”, definindo as regularidades que se enunciam, a figura que se forma. Nessa medida procurámos descobrir a lei do sistema que orientou o aparecimento de enunciados como pseudo e meta-acontecimentos, que dessa forma produziram aquilo que se legitimava como real e considerámos as formas e o conteúdo dessa visibilidade.
A contribuição deste trabalho para o entendimento do modelo protocolar e instrumental de produção da informação televisiva, por um lado, e, por outro lado, para uma reinterpretação da história recente portuguesa, configura-se, assim, a dois níveis. Trata-se, em primeiro lugar, de configurar um sistema de auto-referência do Estado. Em segundo lugar, e em consequência, de expor a crítica da apropriação de um campo de comunicação como forma de eternizar uma fórmula política e a sua classe de protagonistas.
Desta forma, complementarmente às teses de Fernando Rosas e de Manuel Braga da Cruz, que encontram, respetivamente, no sistema colonial, e no sistema corporativo, censório e persecutório, as raízes do retardamento do declínio do regime de Salazar e Caetano, trata-se aqui, após análise do funcionamento do dispositivo técnico e instrumental politico-televisivo do período em questão, de propor o sistema de comunicação mass-mediático, designadamente através dos canais utilizados como veículos de propaganda, como o foi o Telejornal, como um sistema estratégico para a manutenção do regime, e, nessa medida, como um sistema que, a par dos outros já referidos, também contribuiu para o retardamento da sua queda a 25 de Abril de 1974.